-
Arquitetos: Erick Vicente, Fabio Burgos
- Área: 1265 m²
- Ano: 2023
-
Fotografias:Manuel Sá
Descrição enviada pela equipe de projeto. O Palacete da Rua Alfonso Bovero tornou-se, ao longo dos anos, uma lenda no bairro do Sumaré. Construído pelos irmãos Karman, como um dos primeiros investimentos imobiliários da família no bairro, a casa incorporava diversas facilidades incomuns para à época, como sistema de calefação central, água quente na cozinha (além dos banheiros) e um mirante em forma de torre circular, que permitia uma vista de quase 360° do território, onde poderia se avistar o vale onde corria o Córrego do Sumaré, onde hoje se localiza a Av. Sumaré, e o parte do vale por onde corria o Córrego Verde I, que corria às bordas do bairro da Vila Madalena. Um desaguava no Rio Tietê e outro no Rio Pinheiros. O projeto foi publicado na Revista Acrópole, nº 54, em outubro de 1942. A casa, que aparenta ter tido mais de um dono, em determinado momento foi alugada por um grupo escolar tradicional no bairro, que fez diversas modificações físicas e espaciais, algumas irreparáveis. A construção foi ampliada à exaustão para atender as necessidades escolares, como a criação de mais salas, pátio livre para recreações e uma quadra poliesportiva coberta. Praticamente, quase todo o lote foi ocupado.
Porém, uma das intervenções mais agressivas foi o ocultamento total de sua arquitetura, por outdoors e tapumes que levavam a comunicação colorida da escola. Não se podia ver nada do antigo palacete, cuja localização foi caindo no esquecimento dos moradores do bairro. Em 2021 o imóvel ficou vago e outro grupo escolar, também tradicional no bairro, decidiu alugar e ocupar a antiga escola para implantar o programa de ensino fundamental I, pois possuíam apenas o berçário e o programa de educação infantil (pré-escola). A decisão teve como base a ideia que, para adequar as necessidades atuais de acessibilidade e segurança contra incêndio – aparentemente – seria preciso pouco investimento.
Em uma primeira análise, descobriu-se que ali estava o palacete construído pelos irmãos Karman. Provável que essa tenha sido a primeira obra do engenheiro-arquiteto Jarbas Bela Karman, que assina o projeto estrutural da construção original, sendo o arquitetônico assinado pelo arquiteto Bruno Simões Magro. Jarbas Karman tonaria-se, anos mais tarde, um importante projetista de hospitais na América Latina. O projeto partiu da análise dos espaços, formas e elementos que não haviam sido demolidos e que poderiam ser restaurados.
Durante a pesquisa, percebeu-se que, na área externa, somente parte do segundo pavimento e o mirante encontravam-se relativamente em bom estado, com condições de restauro e, na área interna, um dos ambientes (antiga sala de estar) e a bela escada helicoidal entre o térreo e o 1º pavimento (o trecho entre o 1º pavimento e o mirante havia sido demolido). Diante disso, decidiu-se ocupar os poucos espaços livres e as áreas que foram totalmente descaracterizadas, de forma a enquadrar as partes que se mantinham originais.
A materialidade escolhida, estrutura e fechamentos compostos por tubos metálicos de diferentes tamanhos, tem como princípio criar volumes homogêneos e que, ao mesmo tempo, emoldurassem e contrastassem com as partes originais restauradas, criando um diálogo entre o passado e o presente. Foi possível modernizar completamente a escola, dar acessibilidade à todos os níveis, dotá-la da segurança adequada contra incêndio e implantar as mais modernas tecnologias relacionadas ao ensino. Durante o dia os portões ficam abertos de uma forma a não interferir na composição formal dos novos volumes. Durante a noite, os portões se fecham, mantendo a permeabilidade visual para os vestígios do belo palacete da década de 1940, que resistiu bravamente às transformações intensas da metrópole.